Encontros possíveis:
Carlos Fajardo, José Resende, Luiz Paulo Baravelli
Ribeirão Preto
Abertura:
21 de março, 2026 / 16h–19h
Período de visitação:
21 de março a 25 de abril de 2026
A Galeria Marcelo Guarnieri apresenta, de 21 de março a 25 de abril de 2026, a exposição Encontros Possíveis, que reúne obras de Carlos Fajardo, José Resende e Luiz Paulo Baravelli. A mostra propõe uma articulação entre tempos e linguagens ao aproximar produções realizadas em quatro momentos distintos de suas trajetórias (das décadas de 1960, 1980 e 2000 à atualidade), evidenciando inflexões e ressonâncias entre seus trabalhos.
Logo na entrada, o visitante é recebido por Wesley Duke Lee, figura central para a compreensão desse encontro. Sua obra Retrato de Darcy ou a respeito de titia (1970) introduz uma dimensão expandida da pintura ao incorporar uma planta que extrapola o plano bidimensional, apontando para um campo híbrido entre pintura e objeto. Nesse contexto, o legado de Duke Lee atua como um eixo articulador, reativando o elo entre Baravelli, Fajardo e Resende por meio de um trânsito contínuo entre práticas pictóricas e escultóricas.
A influência de Duke Lee se deu não apenas em sua produção artística, mas também em sua atuação como professor, sendo decisiva para a formação de uma geração de artistas. José Resende e Luiz Paulo Baravelli estiveram entre seus interlocutores mais próximos. Resende, além de aluno, integrou o Grupo Rex, ao lado de Nelson Leirner e Geraldo de Barros. Ativo entre 1966 e 1967, o grupo destacou-se por suas ações críticas e experimentais, que tensionavam as estruturas institucionais do sistema de arte por meio de exposições, publicações, palestras e intervenções de caráter provocativo.
Após o encerramento das atividades do Rex e sob o endurecimento do regime militar brasileiro com o Ato Institucional nº 5, Fajardo, Resende, Baravelli e Frederico Nasser fundaram a Escola Brasil. Concebida como um espaço experimental e não hierárquico de ensino, a escola rejeitava modelos acadêmicos tradicionais e priorizava a autonomia do processo criativo. Em seus quatro anos de atividade, formou cerca de 400 alunos e teve papel fundamental na consolidação de uma geração de artistas que ganharia destaque nas décadas seguintes.
A produção de Carlos Fajardo, especialmente entre as décadas de 1960 e 1970, evidencia o desenho como matriz de investigação para a pintura e a escultura. Em Neutral (1966), um cubo de acrílico transparente contém, em seu interior, um segundo cubo virtual delineado por traços que percorrem suas superfícies, configurando uma operação que tensiona os limites entre materialidade e percepção. Apresentada originalmente na exposição Descoberta da América, na Rex Gallery & Sons, a obra era comercializada como um conjunto de instruções, deslocando o valor do objeto para o campo conceitual.
Lua Roubada (1972), realizada em fórmica, integra uma série em que formas geométricas se repetem em diferentes combinações cromáticas, associadas a variações da luz ao longo do dia. Nas obras realizadas a partir dos anos 1990, nota-se que há uma investigação com materiais industriais como aço corten e vidro, na qual o artista explora relações entre planos, transparência e efeitos ópticos em diálogo com a tradição minimalista.
Na obra Sem Título (1968), de José Resende, observa-se a transposição do desenho para o campo tridimensional, evidenciando uma das questões centrais de sua pesquisa: a articulação entre linha, matéria e espaço. Ao longo de sua trajetória, Resende desenvolveu um vocabulário escultórico baseado no uso de materiais industriais como aço, chumbo, ferro e cobre, investigando suas propriedades físicas e suas possibilidades expressivas. Suas obras frequentemente se estruturam a partir de relações de equilíbrio, peso e contrapeso, instaurando tensões que ativam o espaço ao redor. A partir da década de 1990, o artista intensifica sua atuação em projetos de arte pública, ampliando o alcance de suas investigações para o contexto urbano e suas dinâmicas específicas.
Na série pinturas-gato, de Luiz Paulo Baravelli, o artista condensa, em pequenos formatos, um amplo repertório visual construído ao longo de mais de cinco décadas, propondo uma relação com o espectador inspirada no comportamento esquivo e autônomo dos gatos. Essas pinturas recusam a apreensão imediata e se revelam gradualmente, instaurando um jogo de aproximação que exige atenção e disponibilidade. Operando por sobreposições e deslocamentos, Baravelli articula referências diversas em composições permeadas por humor e ambiguidade. Nesse processo, que o artista associa ao seu “Manifesto Onívoro”, as pinturas-gato atuam como mediadoras entre experiência, memória e tempo, configurando uma espécie de retrospectiva em movimento, na qual revisitar o passado implica constantemente reinventá-lo.
Ao colocar em diálogo essas trajetórias, Encontros Possíveis evidencia afinidades formais e conceituais entre os três artistas e a construção de um campo compartilhado de experimentação, no qual pintura e escultura deixam de operar como categorias estanques para se afirmarem como territórios permeáveis, em constante transformação.