São Paulo

Abertura:
11 de novembro / 19h–22h

Período de visitação:
11 de novembro, 2026 a 30 de janeiro, 2027

Marcus Vinícius | Desenhos

A Galeria Marcelo Guarnieri tem o prazer de apresentar, entre 11 de novembro de 2026 e 30 de janeiro de 2027, “Desenhos”, exposição individual de Marcus Vinícius em nosso endereço de São Paulo. A mostra reúne cerca de 70 obras realizadas entre 2025 e 2026 que dão continuidade ao interesse do artista pelo espaço pictórico e seus componentes a partir da lógica modular e da geometria. As obras situam-se entre o desenho, a pintura, a escultura e a colagem, articulando formas geométricas, planos de cor e incisões que transformam a superfície em um campo de relações visuais. A exposição conta com texto crítico de José Augusto Ribeiro.

Integrados por perfis de alumínio que funcionam, simultaneamente, como moldura e linha, os “Desenhos” são construídos em MDF laminado, um composto melamínico amplamente utilizado pela indústria moveleira disponível em uma variedade restrita de cores. Desse modo, a composição das obras é definida pelas limitações do próprio material, já que as intervenções do artista limitam-se a procedimentos práticos, como cortar, encaixar e parafusar. O perfil de alumínio que se integra à composição tem uma função não somente estética como também estruturante, já que ele abraça a espessura da chapa, amarrando e firmando as partes que as compõem.

Como observa José Augusto Ribeiro em seu texto: “Desenho não significa, para Vinícius, a execução de um projeto previamente concebido. As obras se definem durante o trabalho, no contato com os materiais e nas possibilidades que surgem ao longo de sua manipulação. Uma sobra de MDF, um fragmento ou uma solução encontrada em uma peça podem desencadear o desenvolvimento da seguinte, em uma cadeia de experimentações na qual cada trabalho retoma, altera ou abandona procedimentos anteriores.”

Em “Desenhos”, Vinicius desloca sua investigação da superfície para além do brilho, da transparência e da reflexividade, privilegiando a opacidade e uma relação mais tátil com a matéria, na qual se tornam visíveis tanto a textura do laminado quanto as irregularidades dos intervalos entre as chapas. Há, nesse sentido, uma dimensão construtiva do desenho, vinculada aos procedimentos de manufatura e à materialidade dos elementos que constituem as obras.

O interesse do artista pela relação com o espectador não se restringe ao impacto visual de cada peça isoladamente, pois se estende à ocupação do espaço expositivo e à percepção do próprio corpo em movimento diante do conjunto de obras. As variações gráficas e cromáticas, organizadas por uma lógica diagramática, articulam-se no espaço produzindo relações visuais que, embora orientadas por estruturas geométricas precisas, podem provocar certa desorientação no espectador.

“O que se oferece ao olhar é, portanto, menos um sistema fechado do que um pensamento em movimento: um desenho que se constrói no encontro entre matéria e operação, que estabelece regras para em seguida colocá-las à prova e que encontra, na sucessão dos trabalhos, a possibilidade permanente de se reinventar”, conclui Ribeiro.

Dispositivos gráficos

por José Augusto Ribeiro

Os quadros de MDF que compõem esta exposição se comportam um tanto como pinturas, principalmente pelo caráter plano de suas superfícies, pela frontalidade com que se apresentam na parede e pela ênfase que depositam nas relações entre campos de cor. Mas o conjunto também tem algo da escultura e da colagem internalizado tanto em sua constituição física – de estruturas formadas na justaposição de suas partes –, como nos processos de feitura, vindos, em grande medida, da marcenaria, com ações de serrar, lixar, encaixar, fixar, montar.

No fim, os resultados são chamados por Marcus Vinícius de desenhos, por causa, entre outras coisas, das linhas que dinamizam essas construções. De tudo isso um pouco, os trabalhos recentes do artista (realizados a partir de novembro de 2025) se afirmam, ao mesmo tempo, tão plurais e tão específicos: por assumirem propriedades várias e instituírem, nessa movimentação, uma linguagem particular, para a qual não há classificação estável. Que mesmo assim sejam designados por desenhos reforça a importância do raciocínio gráfico e diagramático que particulariza essa produção no panorama da obra.

Desde o final da década de 1990, Marcus Vinícius investiga o espaço pictórico – e cada elemento que o constitui (tinta, pano, madeira, formato, moldura, ferragem, vidro etc.) – a partir de um vocabulário sucinto, de formas geométricas e modulares, com materiais e cores cujas especificações técnicas são definidas pela indústria. Se as ações são, em geral, objetivas – sem a marca de gestos expressivos, com uma economia de operações necessária somente para a construção das obras – e se as escolhas tendem a ser arbitrárias – diante de opções preexistentes, sem espaço para a subjetividade –, as configurações que o trabalho assume são, ao contrário, inventivas e variadas ao longo do tempo.

De lá para cá, nesse período de quase 30 anos, a produção do artista conduz um vocabulário notadamente rigoroso a uma sintaxe diferente a cada vez. A cada aparição pública, são distintas as formas de construção, a paleta cromática e, por vezes, os materiais, apesar do predomínio da madeira e do vidro. Também em decorrência disso, as maneiras como as peças se disponibilizam à observação são diversas. E, quase sempre, os objetos de parede elaborados por Vinícius convocam quem se interessar para inspeção de seus corpos por todos os lados, na diferenciação de planos monocromáticos (em profundidades diferentes, paralelos à parede ou inclinados, reflexivos ou opacos, de cores quentes ou frias, sólidas ou metálicas etc.), numa triangulação que envolve não só o observador e o objeto, como o entorno, o ambiente.

Vistos, então, em relação a esse percurso, os trabalhos de Marcus Vinicius apresentados nesta exposição se afirmam, de fato, mais gráficos, ou menos pictóricos. Não só pela ausência da tinta, mas porque as construções, desta vez, privilegiam sistemas diagramáticos sucintos. Os trabalhos agem um pouco como dispositivos gráficos – organizados, em geral, como estruturas ortogonais, com linhas e planos de cor bem definidos – que propõem acontecimentos visuais para enfrentamento direto com o olhar, cara a cara. Por meio de repetições, rebatimentos, contrastes e espelhamentos, por meio de jogos de proporção na divisão da superfície, ou de retas e diagonais, por meio de sistemas de equilíbrio e desequilíbrio, enfim, por meio de articulações que produzem sensações de movimento, pulsação ou estabilidade provisória. À exceção, talvez, dos trabalhos horizontais e compridos, que sugerem ao observador uma relação temporal, que requer um envolvimento físico, em deslocamento, pela extensão das peças, as demais tendem a gerar impacto imediato, numa só visada.

Já o desenho – os riscos do desenho – surge do corte da serra, da lâmina que secciona e retira a cor da chapa de MDF. Abrindo, assim, sulcos, frestas, que, em vez de separar, colocam formas e cores em relação; põem os elementos para jogo, à medida que insuflam de energia o plano sobre o qual agem. Tais incisões combinam minúcia e violência. Sejam discretas, sutis, sejam contundentes. Algumas rasgam a superfície com velocidade, em diagonal, para encrustar uma cor quente em meio a uma área branca; outras estabelecem padrões, ou por meio de faixas regulares e alternadas de cor, ou de uma sequência de retas, ora ziguezagueantes, ora em ângulo de 90 graus. Ao final, as operações restam sempre aparentes, sempre em evidência, inclusive a diferença de espessura entre os cortes. Pois a ética do trabalho pressupõe essa transparência e integridade, ao notabilizar seu processo de realização. E parte da tensão gráfica das peças é gerada justamente aí, nessa exposição dos procedimentos.

Outra especificidade do trabalho é que desenho, aqui, não implica projeto nem coincide com desígnio. As obras não decorrem de um programa nem de um plano preliminar de realização. Definem-se, antes, em meio ao labor, na experiência com os materiais. Torna-se então curioso que haja uma unidade tão forte neste grupo, sem que isso seja consequência de planejamento ou intenções prévias. Sem dúvida, há conexões que se estabelecem pela materialidade, pelo vocabulário geométrico, pela paleta de cores, pelas dimensões (pequenas, que chamam para aproximação), pelo predomínio do formato vertical... No entanto, o que parece amarrar, de fato, o sentido de conjunto destes trabalhos é a sequência e a continuidade da produção. É a cadência entre um e o próximo, na insinuação que este sai daquele, de que um puxa o seguinte, para repetir uma solução, uma organização, ou para mudar tudo, para alternar, testar outros recursos. Segundo o próprio artista, às vezes é uma sobra de material, o aproveitamento de um fragmento, que desencadeia ideias para um novo trabalho; em sucessão que se dá, de novo, não por coesão ou coerência, mas por efeito de um exercício que avança em cadeia.

Agora, sobre essa identidade geral, prevalecem as particularidades de cada peça, desde um aspecto a princípio menor, como a variação dos tamanhos e formatos, até a multiplicidade de indagações sobre as relações entre forma e cor, entre matéria e espaço. Interrogações que são formuladas com rigor construtivo, mas também com erotismo, ludicidade e bom humor. À eventual tentativa de identificar padrões por aqui, impõe-se uma inteligência viva, que estabelece esquemas formais simples e, na sequência, variações e alternativas ao próprio sistema em formação. Nessa levada, os trabalhos evocam à vontade Lygia Clark, Alfredo Volpi, Milton Dacosta, Celso Renato, Agnes Martin, Robert Ryman, Sean Scully e outros tantos que estão por ser identificados. Mas, mundanas que são – no uso do MDF, esse material derivativo, pensado para tornar prática a vida, vendido como “fácil para trabalhar”, “fácil para limpar”, “pronto para o uso” –, as peças desta exposição aludem igualmente ao design, a amostras de mobiliário, a portas, gavetas, a padrões decorativos. E, emolduradas em perfil de alumínio, são mais objetos que imagens. Ou melhor, são (também) desenhos e, como tal, pelos elementos que traçam, dão a ver um pensamento em ricochete, que se aproxima de linguagens, repertórios e registros culturais diversos, e logo se desvia desses pontos para tomar outros rumos, os seus.