Arte em situação:
Entretempos poéticos de ontem e hoje

curadoria Diego Matos

São Paulo

Abertura:
16 de maio / 11h–15h

Período de visitação:
16 de maio a 18 de julho, 2026

Amelia Toledo, Antonio Dias, Carlos Fajardo, Carmela Gross, Cildo Meireles, Claudio Tozzi, Gerty Saruê, José Resende, Luiz Paulo Baravelli, Rubens Gerchman, Sonia Andrade, Waltercio Caldas

Arte em situação: Entretempos poéticos de ontem e hoje
por Diego Matos, abril de 2026.

Poesia é o que não é poesia.
Augusto de Campos¹

Amelia Toledo (São Paulo, 1926 – 2017), Antonio Dias (Campina Grande, 1944 – 2018), Carlos Fajardo (São Paulo, 1941), Carmela Gross (São Paulo, 1946), Cildo Meireles (Rio de Janeiro, 1948), Claudio Tozzi (São Paulo, 1944), Gerty Saruê (Viena, 1930, no Brasil desde 1954), José Resende (São Paulo, 1945), Luiz Paulo Baravelli (Carapicuíba, 1942), Rubens Gerchman (Rio de Janeiro, 1942 – 2008), Sonia Andrade (Rio de Janeiro, 1935 – 2022) e Waltercio Caldas (Rio de Janeiro, 1946). Estes são os nomes que compõem nossa mostra, iniciativa que se demonstra em permanente construção. Formamos um pequeno fio condutor de ordem poética que põe em contato trabalhos de ontem e hoje, expressando como pressupostos a experimentação e uma pulsão de vida.

De modo geral, esses, essas e tanta gente mais fundamentaram os alicerces da experiência artística contemporânea brasileira. Mesmo se deixarmos de lado a questão geracional, já que começaram a atuar em contextos distintos, seja por idade ou formação, todos, em um certo sentido, experimentaram um senso de vanguarda e construíram um caminho experimental. Se, em parte, há o princípio da ideia e do método, por outro, há também o desejo pela experimentação e a lida com as coisas, das matérias e dos objetos do mundo.

E cá, na realidade brasileira e latino-americana, há uma rara consciência de contexto e da dimensão pública da arte.  A ideia de perscrutar o que está em nossa volta e o que normatiza nossa vivência coletiva é força motriz do artista, ao menos dos nomes que apresentamos. Não há temor em ir além da matéria “arte”, de seu pretenso lugar de distinção. Como diria o pesquisador e curador Moacir dos Anjos, não se sujeita a própria arte às ideologias e disputas político-partidárias, mas sublinha-se que seu escrutínio é responsável por reconfigurar e transformar o sensível. Sob nosso olhar, essa é uma das premissas, inclusive, de seu novo livro de ensaios, o “Ataque à Indiferença”, em que, na análise da produção dos artistas, mais do que nunca, o binômio arte-política permanece indissociável². Por mais desgastado que seja tal binômio, sua ideia permanece viva, de forma silenciosa e não estridente ou instrumentalizada na produção de artistas que, por ora, olhamos com atenção.

De certo, foi a aproximação indelével da arte com a vida – em suas expressões mais prosaicas – que esteve no cerne das produções dos artistas que trazemos: uma espécie de contaminação cruzada em que não se notava (ou não se nota) uma separação objetiva entre ambas as partes. Com tal afirmação, não quero diminuir a natureza da arte ou a relevância de sua disciplina, mas admitir também a importância, no corpo da obra de arte, dos aspectos que nos definem, que estruturam a natureza humana, como parte importante na definição e na própria legitimação da arte. Ela ganha novas camadas de sentido quando enfim é contaminada pelos vários aspectos da vida e extrapola as razões de seus suportes e procedimentos. É esse um aspecto importante que tece elos entre esses trabalhos agora expostos.

Outro ponto que também nos parece importante é a condição sensitiva e sinestésica que o trabalho de arte passaria a conter, rompendo com a própria primazia do olhar. Isso foi característica central da arte de vanguarda brasileira ao longo dos anos 1970.  Nossos olhos nem sempre vão nos entregar tudo. Podemos até partir deles, mas é preciso tomar certo cuidado: eles em algum momento podem nos trair, nos fazer duvidar e nos colocar em um ponto de dúvida e tensão. Uma espécie de sinuca desconcertante em que precisamos revisitar nosso repertório de signos. Ao mesmo tempo, pode ser que, a partir deles, nos despertemos para outros sentidos como a audição, o palato, o olfato e o tato. As produções de vários desses artistas permitem, em muitos casos, um trânsito sinestésico.

Portanto, olhar para os trabalhos desse grupo de artistas é um exercício de atenção que põe em alerta outros aspectos de nossa sensibilidade, algo que atravessa intelecto e corpo. Há, desse modo, uma instância sedutora que não parte da técnica ou da nobreza material. Longe disso. Ela vem de uma observação mais apurada, atenta ao que nos afeta em termos macro e micro.

Por isso, a meu ver, é o trabalho de arte também enquanto “situação”. Há um quê de instabilidade, uma espécie de enunciado que pode deflagar tensões, respostas, humor e reflexões das mais variadas. Não à toa, o termo “Situação” foi recorrentemente utilizado para indicar o poderio cognitivo, semântico e político-social dos trabalhos de arte dessa geração amplificada: artistas que protagonizaram uma radicalização das práticas artísticas entre os anos 1960 e 1970. Se isolarmos a própria ideia de “situação”, podemos dizer de uma combinação de circunstâncias em um dado momento (tempo e lugar). É claro que vemos por aqui apenas uma de muitas janelas abertas para essa produção, caminhos para o entendimento da inteligência de cada trabalho.

Gosto particularmente da ideia de “Situações-limites”³ desenvolvida pelo crítico Paulo Venâncio Filho, quando titulou e escreveu um texto específico ao olhar para os trabalhos de Cildo Meireles e Tunga, quando de suas exposições na Bélgica em 1989. Em termos de contexto, o crítico problematizava e nos dizia: “o problema consistiria em investigar de que modo o contexto brasileiro se apropriou dos modelos europeus modernos, de que forma esses modelos foram ambientados e de que maneira eles atuaram no sentido de efetiva transformação da arte local”. Ainda, para ele, algo que também me parece patente: propõe uma arte que é “pensamento em expansão, uma forma de agir social, uma espécie de política”. Isso não significou uma falta de rigor conceitual e formal. Pelo contrário, o artista é também um pensador dos nossos tempos, entidade responsável por transformar as próprias fronteiras da própria arte contemporânea. Independentemente da técnica ou da linguagem – sempre operadas com rigor e esmero – todos possuem profundo conhecimento e repertório de uma história pregressa da arte e souberam ressignificar o que provinha de uma tradição hegemônica. Aliás, muitos foram professores e professoras de três gerações de artistas e críticos.

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A seleção de obras responde às necessidades mais imediatas da curadoria, tendo em vista a história e a atuação da própria Galeria Marcelo Guarnieri ao longo de algumas décadas. Desse modo, optamos por apresentar saltos temporais no olhar sobre a produção desses artistas, arriscando um contato entre obras do passado e obras do presente. Cada artista comparece com 2 a 3 trabalhos distintos, sempre contaminados pelo cruzamento com práticas poéticas de uma outra produção. De maneira subsequente, sobrepõem-se também a situação espacial-expositiva dos trabalhos, que constroem situações de convívio.

Por toda a dimensão histórica das obras selecionadas, vale sublinhar alguns diálogos sinalizados em exposição. Em primeiro lugar, a presença no centro expositivo três trabalhos que também são enunciados conceituais: o Neutral (1966) de Fajardo, o Estojo de Geometria (1970) de Meireles e o disco-objeto A Origem do futuro (1974) de Waltercio Caldas. Próximo aos dois, a força da matéria de uma instalação da Amelia Toledo.

Em segundo lugar, em termos gráficos, os cadernos originais dos Carimbos (1978) de Carmela Gross estão em contato com as monotipias de Gerty Saruê, produzidas no alvorecer da década de 1970. Em terceiro lugar, é importante destacar as participações de Baravelli e José Resende, dois representantes da Escola Brasil: o primeiro, responsável por construir um caminho pictórico único na arte brasileira, e o segundo, um dos nomes basilares da escultura contemporânea em que a matéria e forma se coadunam e dialogam constantemente.

E não podíamos deixar de mencionar também o encontro auspicioso entre Claudio Tozzi e Rubens Gerchman, que formularam uma série de trabalhos juntos, atentos à urbanidade caótica de São Paulo, também dos anos 1970. De certo, o Nós (2006) azulado de Gross anuncia um valor de pertencimento, tomando conta do espaço da galeria. Já de forma mais discreta, o espaço negativo e estelar de Dias comparece como um campo estratégico de possibilidades a serem imaginadas. Mais uma emissão de luz provém dos monitores que transmitem as ações corporais que Sônia Andrade registra em vídeo, também naqueles anos de chumbo, pós AI-5.

Ainda, é a partir do conceito de situação que é possível imaginar uma transcendência escalar das práticas desses artistas, fugindo das normativas tradicionais do espaço expositivo moderno. Ou seja, uma capacidade poderosa de romper com o próprio equilíbrio do cubo branco: esse ambiente composto por proporções específicas de piso/chão, teto e parede que comportam uma arte contemplativa equilibrada em situação considerada neutra. Aliás, a disposição das obras pela galeria acontece como forma de ruído e contaminação do ambiente expositivo.

Por isso, é a própria ideia de neutralidade que se corrompe quando passamos a falar de “situação”. Há um estado natural de alerta e indefinição que corrompe a própria noção do objeto de arte. A partir do que colocamos em epígrafe, parafraseando o poeta Augusto de Campos, “a arte é o que não é arte”. Afinal, todo enunciado artístico é também poético.

Ou melhor, a arte de hoje é tudo o que nos coloca no lugar da dúvida, onde nem os signos evocados pelas palavras que por vezes titulam os trabalhos conseguem dar conta de uma construção cristalina de significado e sentido. Nem sempre o que é possível ver (com os olhos) é o fato integral da arte. Afinal, todo enunciado artístico é também poético.

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¹Augusto de Campos (São Paulo, 1931) é poeta, tradutor, artista e ensaísta referencial da cultura brasileira contemporânea. A epígrafe acima é o verso de um dos seus muitos poemas visuais já publicados ao longo dos anos. A frase em específico é produção aparentemente inédita, o artista a publicou recentemente em suas redes sociais. Este poema visual (imagem e texto) será inclusive identidade da nova edição “Poesia no centro” (Livraria Megafauna, 2026).

²As premissas de sua investigação já são dadas em sua nota introdutória, algo que amplifica o debate que ele propôs já no seu livro “Contraditório” (Cobogó, 2017). Sugiro a leitura de seu mais recente livro: “Ataque à indiferença: ensaios sobre arte e política” (Cobogó, 2025).

³Situações-Limites é o título do ensaio publicado por Paulo Venâncio Filho, por ocasião da exposição “Tunga Lezarts/ Cildo Through” no Kanaal Art Foundation, em Kortrijk, Bélgica, no ano de 1989. Os trechos mencionados foram extraídos do texto publicado no livreto da mostra.