Deli Sampaio | Autorretrato

Ribeirão Preto

Abertura:
6 de novembro, 2026 / 18h–21h

Período de visitação:
18 de novembro, 2026 a 30 de janeiro, 2027

A Galeria Marcelo Guarnieri tem o prazer de apresentar, de 6 de novembro de 2026 a 30 de janeiro de 2027, a primeira exposição de Deli Sampaio (1932, Ribeirão Preto) em nossa unidade de Ribeirão Preto. A mostra reúne cerca de vinte pinturas realizadas nas décadas de 1950 e 1960, nas quais a representação de motivos cotidianos se articula a uma composição construtiva. Barcos, cadeiras, animais, naturezas-mortas e autorretratos constituem um repertório por meio do qual a artista investiga as relações entre figuração, forma e geometria. Sua produção dialoga com questões centrais da renovação da linguagem pictórica no Brasil em meados do século XX, especialmente no que diz respeito à síntese formal.

Deli Sampaio é formada pela Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, onde estudou em 1952 sob orientação de Quirino Campofiorito, Abelardo Zaluar e Henrique Cavaleiro. Em 1967, junto com outros artistas de renome como Francisco Amêndola, Bassano Vaccarini, Lourdes Sampaio, Divo Marinho, Fernando Espíndola e Ullieno Cicci, fundou o Ateliê 1104 na cidade de Ribeirão Preto. Mais do que um local de trabalho compartilhado, o ateliê constituiu um ambiente de convivência, debate e intercâmbio entre artistas e público, com encontros e outras atividades culturais. Associado à renovação do ambiente artístico local, o espaço contribuiu para ampliar a circulação de propostas modernas e fortalecer a presença de artistas de Ribeirão Preto em salões e exposições de âmbito estadual e nacional. Em atividade até 1973, o Ateliê 1104 ocupou um antigo galpão industrial, onde artistas de diferentes trajetórias e linguagens desenvolveram suas pesquisas individuais e participaram de uma experiência coletiva de produção e difusão cultural.

As obras reunidas nesta exposição revelam o interesse de Deli Sampaio pelas possibilidades construtivas de seu entorno. Em pinturas de embarcações e píeres de madeira, a artista dirige sua atenção para as linhas, os ritmos e os padrões gráficos desses elementos, explorando perspectivas aéreas que tendem à síntese dos motivos em estruturas formais. Em outras obras, cadeiras, portas e janelas são articuladas por meio de formas geométricas elementares, como retângulos e quadrados. Embora essas composições se caracterizem pela economia de elementos e pela ênfase na bidimensionalidade do suporte, a disposição das formas sugere relações de profundidade e estabelece tensões entre superfície e espaço. Realizadas em óleo sobre madeira, as pinturas também incorporam as qualidades físicas do suporte, cuja textura participa da construção da imagem. Essa investigação material se amplia nos trabalhos em que a artista integra a palha trançada, elemento constitutivo das próprias cadeiras representadas, aproximando o objeto cotidiano de sua tradução pictórica.

Também os autorretratos e retratos de figuras femininas constituem um motivo importante dentro da produção da artista. No contexto brasileiro das décadas de 1950 e 1960, quando a consolidação da arte moderna convivia com convenções sociais marcadas por hierarquias de gênero, a insistência da artista nessas figuras adquire também uma dimensão política. Ao dedicar sua pintura à representação de mulheres e voltar o olhar para si mesma por meio do autorretrato, Deli Sampaio afirma a figura feminina como presença central de sua investigação artística, deslocando-a da posição recorrente de objeto representado para o campo da subjetividade e da construção da imagem. Essa leitura permite reconhecer, retrospectivamente, como sua produção abre espaço para questões relativas à identidade, à experiência feminina e à representação das mulheres na história da arte.