São Paulo

Abertura:
03 de outubro / 11h–16h

Período de visitação:
03 – 17 de outubro, 2026

Ricardo Ribeiro: Ecos

A Galeria Marcelo Guarnieri apresenta, entre 3 de outubro e 17 de outubro de 2026, Ecos, segunda exposição individual de Ricardo Ribeiro na sede da galeria em São Paulo. A mostra reúne cerca de trinta fotografias realizadas entre 2019 e 2022 em Guaribas, no Piauí, e Timbó, em Santa Catarina, duas cidades distantes geográfica, histórica e culturalmente, mas aproximadas por uma circunstância política singular: ambas registraram votações majoritárias para os dois candidatos que disputavam o segundo turno das eleições presidenciais de 2018. Guaribas, cidade associada ao lançamento do Programa Fome Zero, no início do primeiro governo Lula, tornou-se um dos símbolos do voto no Nordeste; Timbó, no Vale do Itajaí, representa uma região marcada pela imigração europeia, sobretudo italiana e alemã, e que, nos últimos anos, se consolidou como um importante território de apoio a Jair Bolsonaro.

Foi a partir desse contraste que, em 2019, Ribeiro iniciou uma investigação que se prolongaria por quatro anos e que também daria origem ao documentário Norte Sul Esquerda Direita, lançado em setembro de 2026 no 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Ao longo desse período, o artista produziu aproximadamente três mil fotogramas em filme de médio formato e registrou cerca de cento e trinta horas de filmagens da vida cotidiana dos habitantes dessas duas localidades.

O projeto nasceu com o apoio da Pollock-Krasner Foundation, sediada em Nova York, que selecionou Ribeiro como bolsista em 2019. A experiência dá continuidade a uma prática que o artista vem desenvolvendo há dez anos e que se caracteriza por uma atenção sensível aos territórios que investiga, a partir de uma fotografia documental que combina experiência de campo e um interesse pelas qualidades formais da imagem.

Essa disposição para permanecer e observar encontra um antecedente importante em Puxirum, projeto realizado entre 2016 e 2018 em São Pedro, povoado às margens do rio Arapiuns, no oeste do Pará. Ali, Ribeiro realizou nove visitas ao longo de dois anos, estabelecendo relações de convivência com os moradores e acompanhando as formas coletivas de trabalho e os ritmos da vida ribeirinha.

Em Ecos, esse método de aproximação se desloca da Amazônia para dois extremos do território brasileiro. Se em Puxirum o artista acompanhava uma comunidade organizada em torno de formas coletivas de trabalho, aqui ele se volta para dois contextos marcados por experiências sociais e políticas aparentemente opostas. O interesse está em observar de perto a distância entre eles e, nesse movimento, perceber aquilo que resiste à lógica dos antagonismos.

As fotografias produzidas durante os anos que atravessam o governo de Jair Bolsonaro e a pandemia de Covid-19 escapam do registro direto dos acontecimentos políticos daquele período para emergir de maneira oblíqua, nas marcas deixadas pela vida cotidiana. Interiores domésticos, objetos de uso cotidiano como aparelhos de televisão, calendários e móveis, fachadas e paisagens contemplativas compõem uma espécie de inventário de um país em transformação. São imagens em que o tempo parece suspenso, e nas quais pequenos detalhes como uma superfície desgastada, uma luz que atravessa um ambiente ou uma arquitetura recém-construída adquirem uma importância que ultrapassa sua função documental.

A atenção de Ribeiro àquilo que poderia parecer secundário é fundamental para a construção de seu trabalho. Em vez de buscar imagens emblemáticas ou acontecimentos excepcionais, o artista frequentemente se detém sobre aquilo que permanece quando o acontecimento termina, entendendo a fotografia como um instrumento de aproximação e de espera. Seus retratos situam seus personagens dentro de suas casas, paisagens e relações, fazendo do contexto uma parte constitutiva da representação.

Essa perspectiva também está presente na passagem do projeto fotográfico para o cinema. Norte Sul Esquerda Direita preserva a investigação iniciada com as fotografias e amplia seu campo de observação por meio das vozes dos habitantes de Guaribas, no Piauí, e de Timbó, em Santa Catarina. Pequenos agricultores, pedreiros, lavadeiras, professores, profissionais da saúde, militares e aposentados aparecem no filme como indivíduos cujas escolhas estão relacionadas a experiências concretas de trabalho, família, religião, expectativas e temores.

Há também, entre os dois contextos, experiências materiais que se aproximam. Apesar das diferenças históricas e das distintas orientações políticas predominantes, os habitantes das duas regiões vivem em sociedades ligadas ao trabalho rural e às transformações do campo. São questões ligadas à terra, ao trabalho, à expansão do agronegócio e às mudanças econômicas do país que, de uma maneira ou de outra, atravessam suas experiências e percepções.

A aparente oposição entre norte e sul, esquerda e direita permanece como uma tensão que organiza o conjunto na exposição. Ao aproximar imagens produzidas nos dois territórios, Ecos produz uma espécie de jogo de espelhos entre essas categorias: imagens que se aproximam, se confundem e, por vezes, parecem refletir umas às outras. Uma paisagem pode encontrar seu correspondente inesperado em outra, um interior doméstico pode parecer familiar a muitos quilômetros de distância, um gesto, uma arquitetura ou um objeto podem atravessar fronteiras políticas que, à primeira vista, pareciam intransponíveis.

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ecos

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algo esteve
esteve com alguém
esteve alguém com
algo
esteve
tão distante
mas alguém, comigo
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por favor, como faço para chegar ali?


para Ricardo Ribeiro, muito de sua fotografia acontece a partir da mecânica colocada na pergunta acima, que propõe: alguém quer sair de um lugar/estado vivido para chegar a um outro lugar/estado vivido por outro.
no Sudoeste Piauiense, tive o privilégio de presenciar o primeiro eixo deste trabalho, fruto de viagens ao Piauí e Santa Catarina, em uma dessas situações em que ele se coloca para, de certa maneira, voltar a um estado/lugar onde o funcionamento das coisas é outro, gerenciado por outros e ainda suponho, fruto de uma outra materialidade*.
*materialidade essa a marxista, que afirma que a vida material, focada nas condições econômicas e no trabalho humano, é a base real que determina a consciência, a política e a cultura de outrem.

trago esse tema na tentativa de especular onde os diversos fluxos de colonização e de migração desse território que chamamos de Brasil, claramente desenhados por aqueles que detinham e detêm o poder político e econômico, colocam a massa de pessoas envolvida e necessária a esses processos em certa medida à mercê do acaso e que, se, num rolar dos dados, fossem trocadas de lugar - a da direita vai pra esquerda, a da esquerda vai pra cima, a de cima vai pra baixo e a debaixo vai pra direita - poderíamos muito bem seguir no mesmo cenário - o que foi pra esquerda pensaria como o da esquerda que foi pra cima, o que foi pra cima pensaria como o de cima que foi pra direita e assim sucessivamente.

os últimos 10 anos - pelo menos - no Brasil nos mostraram que esse poder político e econômico, munido de novas maneiras digitais/online de se relacionar, pode seguir influenciando essa consciência, essa política e essa cultura, quase como uma materialidade online/em linha. o convite e intentos aqui são: e se formos todos muitos ecos, uma história de ecos? e se, num outro rolar de dados, colocássemos essa massa de pessoas num mesmo lugar onde se misturassem e se confundissem? talvez um lugar offline/fora de linha utópico, mas ainda assim, um lugar muito próximo daquele onde se faz uma pergunta fora da linha para uma pessoa fora da linha para se chegar em um lugar fora da linha.

eco

um eco
       dois dois eco
                      três três três eco

                                           quatro quatro quatro quatro eco

            cinco cinco cinco cinco cinco eco

                                                           seis seis seis seis seis seis eco                                                                                                                                                                                                            

                       sete sete sete sete sete sete sete eco

oito oito oito oito oito oito oito oito eco

                                                  nove nove nove nove nove nove nove nove nove eco

somos muitos ecos


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texto por Igor Morales